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| Comandos portugueses estão estacionados no aeroporto da capital afegã mas podem ser enviados a qualquer momento para outro local |
Portugal está a enviar material militar com carácter de urgência para o Afeganistão, face às lacunas detectadas na força portuguesa que ali está destacada. Os problemas ficaram mais visíveis na sequência das recentes emboscadas dos terroristas talibans na região de Kandahar, onde a força nacional destacada tem estado empenhada. E que, garantem fontes militares, só não tiveram reflexos no número de baixas e no resultado operacional pelo elevado nível de instrução recebido e pelo empenhamento na missão por parte dos militares.
A primeira vaga de material - novas placas de protecção balística - deverá chegar hoje ou amanhã de avião a Cabul. Novos coletes, com mais garantias de protecção, poderão também ser encomendados. A decisão foi tomada na semana passada, com a chegada de relatórios operacionais relativos aos ataques sofridos pelas tropas portuguesas.
Já quanto ao armamento, em particular a G-3, o problema é mais complexo, uma vez que a sua substituição está dependente do lançamento de um novo concurso por parte do Ministério da Defesa (MDN).
Nem este nem o Estado-Maior do Exército quiseram comentar o caso do Afeganistão, alegando que se trata de "questões operacionais" em ambiente de conflito. O Exército, no entanto, salienta estar "a concretizar esforços para dotar os militares de equipamentos mais recentes e ligeiros, que garantam a protecção individual sem comprometer a mobilidade táctica". Já quanto à substituição da G-3, diz acolher "de bom grado uma nova arma o mais rapidamente possível".
O JN sabe, no entanto, que está a decorrer um processo - possível - de estender a vida da G-3, com a adaptação de kits para que a espingarda com 40 anos de serviço possa receber novos equipamentos, como lanternas, silenciadores (tecnicamente designados supressores de som) e miras para aumentar a certeza de tiro.
Os portugueses estão a cumprir a missão, mas para garantir um grau de eficácia e de protecção igual aos das restantes forças da OTAN em serviço no Afeganistão, cada soldado tem que fazer um esforço quase a duplicar, carregando coletes à prova de bala com mais de 14 kg, quando os equiparáveis dos aliados não pesam mais de 8 kg.
Fazer fogo deitado é difícil e o mesmo se passa no esforço para sair das viaturas blindadas durante uma emboscada - a situação que tem sido mais comum e onde a chave para evitar baixas é uma reacção imediata com fogo e movimento, até agora conseguida com sucesso.
A referência para os novos coletes são os usados pela GNR em Timor-Leste e comprados pelo Ministério da Administração Interna no ano passado, equiparáveis à qualidade dos equipamentos usados por outros países da OTAN no Afeganistão.
De regresso a Cabul
Os comandos em serviço no Afeganistão começam no início da semana a regressar a Cabul, mas nada invalida que a força - num total de 150 homens - possa voltar a operar na difícil zona de Kandahar. É que a força (que faz rotação com uma companhia de pára-quedistas, o que deverá acontecer em Agosto) faz parte da força de reacção rápida às ordens directas do comandante da ISAF (a força da OTAN que opera no Afeganistão). Um empenhamento que já custou um morto e três feridos, desde 2005, quando a missão foi iniciada. Isto significa que a companhia portuguesa está normalmente estacionada no aeroporto da capital afegã, mas, de um momento para o outro, pode ser enviada para uma qualquer missão, como veio a acontecer com Kandahar. Das missões atribuídas à força portuguesa constam desde acções de reconhecimento a escoltas de colunas, assim como segurança de área. Esta, por exemplo, foi uma das missões onde esteve empenhada a companhia de pára-quedistas que antecedeu a de comandos, na zona também de Kandahar, na segurança a infra-estruturas aeroportuárias. Se bem que o caso tenha sido pouco falado a verdade é que também os pára-quedistas tiveram que intervir com acções de força nas imediações do aeroporto, quando os talibans fizeram vários disparos de roquete.
Mais dois atentados à bomba
A forte explosão que destruiu, ontem, um autocarro da Academia da Polícia de Cabul, no Afeganistão, provocou pelo menos 35 mortos e foi o mais violento atentado na capital afegã desde a invasão norte-americana, em 2001. Os talibans já reivindicaram a autoria do ataque. Na província de Kandahar, outro atentado matou três soldados da força multinacional, juntamente com um intérprete afegão.
No atentado à bomba de Cabul - que destruiu as partes laterais e o tejadilho do autocarro -, para além dos 35 mortos (número que inclui 22 polícias), outras 35 pessoas ficaram feridas. De acordo com testemunhas, o autocarro transportava vários instrutores da Polícia afegã.
O suposto porta-voz dos talibã, Qari Yousef Ahmadi, disse que um atacante suicida do grupo provocou a explosão. Segundo Ahmadi, o terrorista Mullah Asim Abdul Rahman, de 23 anos, era da região de Cabul. O relato, feito através de um telefone via satélite a partir de um local não identificado, não pôde ser confirmado.
O outro ataque, que vitimou três soldados da força multinacional e um intérprete afegão, ocorreu na província de Kandahar, quando um engenho explosivo foi detonado à passagem do veículo em que seguiam os militares. Com as novas baixas, aumenta para 87 o número de soldados da força multinacional e da ISAF (Força Internacional de Ajuda à Segurança, liderada pela OTAN) mortos no Afeganistão, desde o início do ano.
Placa balística
É colocada à frente e atrás do colete de protecção. A que é usada pelos portugueses é em cerâmica e já está obsoleta. As novas placas, em polímero, pesam muito menos e aguentam vários impactos directos de 7,62 mm, o calibre da AK-47, usada pelos talibã.
Coletes de protecção
Os militares têm pretendido para os vários teatros de operações um colete que também sirva de transportador, à semelhança do usado pela GNR em Timor. Com as placas de protecção não ultrapassa os 8 kg.
Obsolescência
As armas tornam-se obsoletas não apenas devido ao calibre mas também pela impossibilidade de receberem novos equipamentos, como sistemas ópticos de mira e sensores.
Autor: Carlos Varela
Fonte: Jornal de Notícias (jn.sapo.pt) |